19 de novembro de 2009

Penitenciária de tinta

Os textos inacabados que apago para escrever tuas cartas, meus textos borrados, idéias que não me vêm na cabeça, depositados aqui, como os vermes que rodeiam teu caixão buscando cegamente por tua carne apodrecida nas horas – não se faz presente ali, a tua carne – são onze horas. Escrever sobre escrever, e sobre o que mais poderia eu – ou tu – escrever?
Do âmago de meu crânio escorre a tinta e as idéias se criam dela, como nuvens coloridas que se formam ao que meus ossos – em seu tom opaco – martelam e martirizam as teclas neuróticas da Olivetti. Tu transformas minha penitenciária num palco de teatro – imenso e vazio – onde ocorrem as chacinas de idéias que nunca existiram, de rostos que não vi em meus textos.
O sangue é a tinta da minha pena cerebral, que voa e jorra parra iniciar o quarto ato – sem pausa para café. As mãos inertes agora fagocitam minhas idéias – e choram rosas de prata sobre o palco – é o fim do espetáculo. Meu texto embaça meus próprios olhos, já não sei o que estou escrevendo, as palavras soltam-se do pergaminho para virem beijar-me a face. Sangue na Olivetti.

Um comentário:

Unknown disse...

Madrugada de outros ventos
Que me chega em paz de chuva
A guitarra é o mel da uva
Melodiosa poesia
Encontrei as três marias
No olhar de um canto antigo
Que teimou andar comigo
Nos fogões das pulperias
Bolhadeira mão forrada
Ramalhada dos cogotes
Dos chasqueiros tranco e trotes
Seguem juntos como apero
Chamarreando guitarrero
Num domingo de carreira
Polcas, chotes e rancheiras
Que desceram dos arreios

Ficou estendido para os que vieram comigo
Um poncho de luz
Petrificada escritas num pergaminho das horas
Que nos fizeram cantar
Petrificado olhar benzido de sanga buena
Ou de um lagoão de esperança
Na face tataraneta de um guri
Cerno empedrada
E segue o tempo acampado
Com pedras pelo caminho
Talvez nas flores do espinho
Eu mantenha um canto antigo
Vai teimar morrer comigo
Petrificando a memória
De quem respeita a sua historia
Igual a taipa empedrada
Que mesmo pedra nos guarda
Alegria molhada no serenal da poesia
Pra se tornar melodia
Quando apeio um canto antigo
Que teima em viver comigo
Nos fogões de pulperias

Não emita a cor do poncho encarnado,chiripá
Franjas sujas de rosar
No suor da cavalhada
Que antecedem carreiradas
E os feitiços perfumados
Tropas, jerras e alambrados
No sem fim de uma invernada
Mangueirão de pedra moura
É o meu campo nestes ventos
Cerne duro contra o tempo
Petrificado em poesia
Encilhando a qualquer dia
E apeiando um canto antigo
Que teimou morrer comigo
Nos fogões de pulperias.

Petrificado
Lisandro Amaral